terça-feira, 5 de novembro de 2013

Renato Canini, o herói que não estava nos gibis

           
                O dia 30 de outubro terminou mais triste. Por volta das 21h partia um dos heróis do nosso tempo. Como o Superman, que se esconde em um disfarce de jornalista, tímido e quieto, Renato Canini, um dos maiores cartunistas que o Brasil viu existir, era acima de tudo um homem bom, honesto, verdadeiro, carinhoso, um exemplo de ser humano que transcendia o próprio trabalho. Uma pessoa que pôde nos mostrar que a fé move montanhas, nos mostrar a essencialidade da vida, que soube explorar ao máximo seu potencial criativo e com isso, deixar seu legado. Aos 77 anos Canini produzia cartuns compulsivamente todos os dias, e cada vez melhor. Seus desenhos, produzidos com simples canetinhas, algumas já gastas, saltavam aos nossos olhos e nos tirava o fôlego.

                Lembro da última vez que o visitei, sentado em sua cadeira de balanço, conversávamos sobre desenho, sobre curiosidades, sobre o mundo. Ter momentos como este, ao lado de um homem sábio, um artista a ser honrado, era desfrutar de minutos únicos, era uma fração de tempo que precisava ser guardada e também absorvida. Era um aprendizado. Canini, antes de ser um cartunista, era um educador. Nos ensinava, em sua simplicidade, em seu processo contínuo de aprender sobre a vida, que a tal felicidade tem muito mais a ver com o que somos, do que com o que temos. E ao lado de sua alma gêmea, sua amiga, seu anjo e esposa, Maria de Lourdes, mostrou para cada amigo que nunca é tarde para o amor. Foi pelo desenho que se conheceram. Um namoro que começou com a troca de livros e encantava a todos pelo brilho de olhos adolescentes, que se contemplavam e se completavam.

Canini e Zé Carioca
                Canini ficou conhecido por abrasileirar o personagem Zé Carioca, de Walt Disney. Foi nas mãos de Canini e nos roteiros de Ivan Saidenberg, que o papagaio malandro tornou-se símbolo de uma nação, e por causa disso, não agradou nem um pouco o estúdio estadunidense, muito mais interessado em propagar o “american way of life” do que de fato, boas histórias. A vida de ambos se confunde: Canini era muito mais do que o desenhista de Zé Carioca. E Zé Carioca, nas mãos de Canini, era muito mais do que um personagem Disney. Chamado muitas vezes de pai do Zé Carioca – me fazendo lembrar o famoso ditado popular de que pai não é quem faz, é quem cria – Canini adotou o papagaio e deu a ele vida. Quem quiser saber um pouco da história do personagem e da trajetória de Canini pela Editora Abril, indico a dissertação de mestrado do cartunista Eloar Guazzelli, intitulada Canini e o anti-herói brasileiro: do Zé Candando ao Zé - realmente – carioca, (disponível no endereço: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27154/tde-16092009-205951/pt-br.php) e o meu artigo, escrito juntamente com a Profª. Drª. Elisabeth Brandão Schmidt, intitulado Zé Carioca por Renato Canini: uma análise a partir da óptica da Educação Ambiental, (disponível no endereço: http://www.ufpel.edu.br/ifisp/ppgs/eics/dvd/documentos/gts_llleics/gt4/g4wagner.pdf).
                Para quem não sabe, Zé Carioca nasceu com intenções meramente militares. No auge da Segunda Guerra Mundial, em 1941, estava os Estados Unidos em busca de países para integrar as forças aliadas e os Estúdios Disney eram o instrumento mais simpático para essa inserção. Nessa época, com 5 anos, Canini riscava as calçadas da cidade de Paraí, no Rio Grande do Sul, e nem imaginava que um dia viesse a se tornar este fenômeno das artes gráficas.
Walt Disney, ao realizar uma turnê pela América Latina, passando por Brasil, Uruguay, Argentina e Peru, juntamente com outros desenhistas de seu estúdio, conhece o trabalho de outro grande artista brasileiro, o cartunista J. Carlos. Muito interessado especificamente por um personagem que este desenvolvia, em um período em que direitos autorais eram pouco respeitados, copiou o traço e o personagem daquele que se tornaria no grande ícone dos quadrinhos brasileiros. Nascia assim Joe Carioca, ou Zé Carioca, no contexto da "Good Neighbor Policy", ou Política de Boa Vizinhança, realizada pelos Estados Unidos visando a conquista da simpatia dos países da América Latina, lançando os filmes Alô Amigos em 1942 e "The Three Caballeros", no Brasil intitulado Você já foi à Bahia? em 1944.
A Segunda Guerra Mundial acaba em 1945 e o personagem, até então publicado em tiras somente nos Estados Unidos e apresentado nos dois filmes, é esquecido por mais de dez anos. O mundo passa por uma restruturação e novos interesses surgem. Não há mais a grande guerra, e sim a Guerra Fria, o planeta polarizado, interesses comerciais e políticos, e novamente, surge o interesse dos Estados Unidos em retomar parcerias com países da América Latina, principalmente o Brasil. Com esta proposta a Editora Abril, estrutura um estúdio próprio destinado a produzir histórias em quadrinhos e assim, suprir o crescente número de publicações Disney. Renato Canini que em 1969 é contratado pela Editora Abril para desenhar na revista Recreio, é convidado em 1971 a desenhar o personagem Zé Carioca, produzindo aquela que seria a primeira história do personagem desenhada por suas mãos, intitulada O Leão que Espirrava, assinando também o roteiro.
A vestimenta de Zé Carioca era baseada na estética dos homens de negócio da alta sociedade norte-americana, que se apresentavam com ternos, chapéus e bengala. Canini percebe que era insuportável vestir aquela roupa em pleno calor tropical do Rio de Janeiro. Que os cenários e tudo mais apresentados nas histórias do papagaio não tinham nada a ver com a estética carioca e mesmo sem conhecer o Estado da Guanabara, passou a utilizar , revistas, jornais e cartões postais como referência. Renascia assim o personagem Zé Carioca, desenhado por Canini até 1977, quando este produz a última história do personagem intitulada O Fiscal, que expõe questões de corrupção e fala sobre honestidade, em plena ditadura militar, o que faz a mesma ser censurada internamente pela Editora Abril e publicada somente em 1983.
A desculpa da Editora Abril para o afastamento de Renato Canini do posto de desenhista oficial do personagem Zé Carioca se deu por conta de uma determinação dos Estúdios Disney, direto dos Estados Unidos, ao julgarem que o traço do personagem havia, ao longo dos anos, fugido dos padrões estadunindense. Na verdade, ao estudar as histórias de Zé Carioca produzidas por Canini, percebemos não apenas o “abrasileirar” do personagem, ao tornar-se um cidadão do povo, que passava pelos problemas do desemprego, da fome, da falta de dinheiro, o que tornava o personagem em si facilmente identificado pelo povo e, automaticamente, uma crítica contundente a política vigente imposta pela ditadura militar, apoiada pelos Estados Unidos. Ou seja, Zé Carioca de Renato Canini era subversivo e não contemplava os interesses políticos da classe dominante. Pode-se dizer que Canini tentou fazer a revolução por dentro do sistema, e conseguiu. Tanto que os seis anos pelo qual foi responsável por desenhar o personagem, caracterizaram e marcaram Zé Carioca no imaginário popular ao longo dos 40 anos seguintes, recebendo em 2005 um livro especial em sua homenagem, como um dos Mestres Disney de todo mundo, ao lado de Carl Barks, Don Rosa, Giorgio Cavazzano, Floyd Gottfredson e Romano Scarpa.

Livro Mestres Disney, com seleção de histórias de Zé Carioca produzidas pro Renato Canini.


Quem foi Renato Canini?
Renato Vinicius Canini nasceu na cidade de Paraí, no Rio Grande do Sul, uma pequena cidade entre Bento Gonçalves e Passo Fundo, em 22 de Fevereiro de 1936. Começou a desenhar em 1957 para a revista Cacique, publicada no Rio Grande do Sul, no período de 1954 a 1963, pelo Centro de Pesquisas e Orientação Educacionais – CPOE/RS, da Secretaria de Educação e Cultura, distribuída nas escolas de todo o estado. Foi um dos fundadores da CETPA – Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre-RS, articulada por José Geraldo, através do então governador Leonel Brizola. Em 1965, ilustra um pequeno texto no livro Gente e Bichos de Érico Veríssimo, atuando também como cenarista de TV. Em 1967, Canini muda para São Paulo para trabalhar na revista infantil Bem-Te-Vi, da Imprensa Metodista, sendo, em 1969, contratado pela Editora Abril para desenhar na revista Recreio. Desenhando o personagem Zé Carioca entre 1971 e 1977, para o qual adotou um pictograma, um caramujo com uma antena de TV na carapaça, colocando também seu nome em vários elementos do cenário, como "Cantina Canini", "Sabão Canini", "Arroz Canini" entre outros. Era uma pichação em sua própria história, a qual não era possível assinar, sendo todas produzidas, na teoria, por Walt Disney.
Dr. Fraude, personagem de Canini

Não tá no gibi, cartuns de Canini

Ozelefante, cartuns de Canini

Após este período, Canini ilustrou vários livros infantis e criou vários personagens, como Dr. Fraude, Ozelefante, Kactus Kid, entre outros. E nos últimos 10 anos recebeu uma série de homenagens em vários eventos por todo o Brasil, podendo ver em vida o reconhecimento pelo próprio trabalho. Foi patrono da 35ª Feira do Livro da FURG, na Praia do Cassino em 2009, recebendo também no mesmo ano homenagem no FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, Minas Gerais. No início de outubro, dias antes de falecer, Canini recebeu um espaço permanente de exposição no saguão da Universidade Católica de Pelotas, no qual estão expostos vários cartuns e tiras daquele que é de fato seu principal trabalho, lançado em livro em 2010 pela editora Formato: Tibica, o defensor da ecologia, no qual apresenta um dos seus personagens mais marcantes, o índio Tibica, em suas tiras e cartuns criticando a violência, a devastação das florestas, a poluição e a exploração do índio pelo homem branco.
Livro do personagem Tibica, desenhado por Canini

Canini lança o personagem Tibica em 1978 para o projeto Tiras da Editora Abril, com o qual manteve uma relação de afeto e realizou da sua forma a Educação Ambiental pelos seus quadrinhos.

Tira do personagem Tibica, de Canini

Mary Weiss, jornalista e escritora, homenageada com o prefácio do livro “Tibica, o defensor da ecologia”, descreve muito bem a ligação e as possibilidades de Educação Ambiental que as tirinhas do menino indígena oferecem:
Tibica é um personagem ecológico que, unindo seu amor a Deus e à natureza, faz críticas à violência, à devastação das florestas, à poluição e à exploração do índio pelo branco. Defensor da ecologia, demonstra que o assunto é atual desde os tempos bíblicos. Valores antigos em constante renovação. Anti-herói e antiviolência, apesar de os meios de comunicação e até mesmo os quadrinhos estarem carregados de violência como nunca. Dizem que são os tempos, mas isso não justifica... Às vezes satírico, outras vezes fazendo uso de seu ser poético, Tibica conversa com as plantas e com os animais. Sua comunicação carregada de graça, sutiliza e humor atrai não só as crianças como também os adultos. (CANINI, 2010, p. 5)


No que se refere a Tibica, é importante registrar algumas palavras do próprio autor:
Por muito tempo fiz cartum para divertir, mas acredito que temos de aproveitar a oportunidade, justificar o sacrifício das árvores derrubadas para impressão com algo mais. Acho que é o trabalho mais importante da minha vida. Bem mais importante que as cento e poucas histórias que desenhei do Zé Carioca. (CANINI, 2010, p. 95)

                Um dos trabalhos mais recentes de Canini é o livro Pago pra ver, editado pela IEL e CORAG, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre em novembro de 2012, com a presença de vários de seus amigos, como os cartunistas Santiago, Luis Fernando Veríssimo, Fraga, Goida, Lancast e Edgar Vasques. Um trabalho que consiste em uma reunião de cartuns que também apresentam a temática ambiental, retratando a vida do gaúcho no pampa, a beleza do campo, a melancolia, o trabalho, as dificuldades, a concentração da terra pelo latifúndio, o êxodo rural e a urbanização.
Livro Pago pra ver, de Canini


Veríssimo, Fraga, Goida, Canini e Lancast, no lançamento do livro Pago pra ver, em novembro de 2012, Porto Alegre.

Canini autografando o livro Pago pra ver

                Canini, que viveu seus últimos anos na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, fez uma legião de amigos, deixou sua passagem por esta vida marcada pela arte e pelo amor. Pôde, em vida, receber o carinho dos amigos e retribuí-lo em dobro. Uma pessoa que precisa ser lembrada, exaltada, contemplada, estudada. Um exemplo de artista, um herói, como tantos retratados em suas tiras intituladas Não tá no gibi. Sim, Canini não estava no gibi, estava entre nós, simples mortais.

                Ao mestre, nosso muito obrigado por todos os momentos!


4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Wagner!
Talentoso e sensível, como sempre!
Beijo
Tânia Almeida

Ricardo Roehe disse...

Belo relato e homenagem!
Parabéns e obrigado!

Fernando Ventura disse...

Como assim "A DESCULPA da Editora Abril"? Não foi "desculpa" coisa nenhuma e você não faz a menor ideia do que está falando.

Fernando Ventura disse...

Wagner, me desculpe se pareci um pouco "inflamado" no meu comentário anterior, até porque fomos ambos muito amigos do Canini.

A pressão da Disney americana existiu sim. Por muitos anos! Quem segurou as pontas, tentando convencer os americanos que o Zé Carioca do Canini vendia bem foi o Waldyr Igayara, então diretor editorial na Abril. Sem ele o Canini não teria conseguido publicar o Zé Carioca por tanto tempo. A pressão era realmente por uma questão de estilo. Naquela época todas as licenças eram obrigadas a seguir model-sheets muito restritos.